O abismo nunca é externo, pensou, ao pensar noutra coisa.
Mais que o adiar o inadiável, a escolha pesava-lhe.
Como já desejara não ter na mão a alavanca do seu destino, ainda que o não a puxar lhe valesse o mesmo...
Descarga de consciência, talvez.
Mas teria que fazer a sua escolha, e a inação não o libertava disso. Ou o esquecimento consciente.
A verdade é que não era já o mesmo, a partir do fatídico momento em que a escolha se assumiu como tal.
As hipóteses eram simples, quase sempre o são.
Desligar a máquina, a eterna solidão do desconhecido, a penumbra da inexistência do anterior, a morte do (na sua ideia desde sempre!) habitual; ou o lento apagar da realidade, o corroer do tempo, a prolongada dor do antecipado momento (e a prolongada dor da vida em si), a decadência do gradiente de deixar de ser.
E a decisão era, como poucas, inteiramente sua (ou assim o pensava, o que é o mesmo). Ou a falta da mesma, terceira hipótese inexistente e impossível, à falta de Deus ex machina.
Adiar? Claro que o tentou, mas com o passar dos minutos eram horas, e das horas eram dias, e dos dias eram eternidades de sonolência inactiva, de morte já na vida.
Por diversas vezes decidiu, e decidiu o contrário, e esperou, e esperou não ter esperado. A sua racionalidade impedia-o de uma escolha, e essa escolha impedia-o de ser racional. Fora ele um pouco mais irreflectido e teria, de imediato, puxado os fios que o prendiam àquela vida já não desejada, e partido. Mas não era essa a sua natureza, e o abismo que o separava do resto, já o admitira, residia em si.
O que fez, então? Ainda hoje não o sabe, e segue, acompanhado pela máquina que o mantém no limbo, o raciocínio limpo e conflituoso, as forças em eterna luta.
E no fundo indiferente àquela presença, que não o mantém vivo e não o deixa morrer, revoltando-se às vezes pelo sentimento de prisão, agradecendo outras pela doce inconsciência confortável em que o mantém.
A máquina pisca, apita, funciona (ao contrário dele), alheia a qualquer pensamento ou dilema.
Mais um dia. Será?
Talvez amanhã. Sim, amanhã é um bom dia. Ou não.

