Domingo, 17 de Abril de 2011

O abismo nunca é externo, pensou, ao pensar noutra coisa.

Mais que o adiar o inadiável, a escolha pesava-lhe. 

Como já desejara não ter na mão a alavanca do seu destino, ainda que o não a puxar lhe valesse o mesmo...

 

Descarga de consciência, talvez.

 

Mas teria que fazer a sua escolha, e a inação não o libertava disso. Ou o esquecimento consciente.

 

A verdade é que não era já o mesmo, a partir do fatídico momento em que a escolha se assumiu como tal.

 

As hipóteses eram simples, quase sempre o são. 

 

Desligar a máquina, a eterna solidão do desconhecido, a penumbra da inexistência do anterior, a morte do (na sua ideia desde sempre!) habitual; ou o lento apagar da realidade, o corroer do tempo, a prolongada dor do antecipado momento (e a prolongada dor da vida em si), a decadência do gradiente de deixar de ser.

 

E a decisão era, como poucas, inteiramente sua (ou assim o pensava, o que é o mesmo). Ou a falta da mesma, terceira hipótese inexistente e impossível, à falta de Deus ex machina.

 

Adiar? Claro que o tentou, mas com o passar dos minutos eram horas, e das horas eram dias, e dos dias eram eternidades de sonolência inactiva, de morte já na vida.

 

Por diversas vezes decidiu, e decidiu o contrário, e esperou, e esperou não ter esperado. A sua racionalidade impedia-o de uma escolha, e essa escolha impedia-o de ser racional. Fora ele um pouco mais irreflectido e teria, de imediato, puxado os fios que o prendiam àquela vida já não desejada, e partido. Mas não era essa a sua natureza, e o abismo que o separava do resto, já o admitira, residia em si.

 

O que fez, então? Ainda hoje não o sabe, e segue, acompanhado pela máquina que o mantém no limbo, o raciocínio limpo e conflituoso, as forças em eterna luta.

 

E no fundo indiferente àquela presença, que não o mantém vivo e não o deixa morrer, revoltando-se às vezes pelo sentimento de prisão, agradecendo outras pela doce inconsciência confortável em que o mantém.

 

A máquina pisca, apita, funciona (ao contrário dele), alheia a qualquer pensamento ou dilema.

 

Mais um dia. Será?

 

Talvez amanhã. Sim, amanhã é um bom dia. Ou não.

publicado por Pedro Leitão às 05:15
link do post | comentar | | | adicionar aos favoritos

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


últ. comentários
é sim, eu gosto bastante de metáforas =)
Metáforas é do melhor ;)
por causa daquele meu post também cheguei a ter as...
Não me parece de todo pertinente.Sendo que o texto...
Fumas?
Ao contrário de um maço de tabaco que tem 20 cigar...
Eu diria mais que é uma questão do sentido, do obj...
É a velha questão: a vida é mesmo vida? Estamos me...
Pois... parece que está difícil, ultimamente.Ou en...
Há que encher a cabeça com outros pensamentos...
arquivos

blogs SAPO


Universidade de Aveiro