Era, acima de tudo, um homem normal, como todos a algum nível o são. Percorria os dias, vagarosamente, sem novidade ou sobressalto outros que não estar vivo, e não pensava vez alguma poder ser de outra maneira (quem de nós, verdadeira e intimamente o pensa?).
Tinha uma rotina, indolente e banal, repetida e em nada inesperada. Trabalhava, um trabalho indiferenciado e irrelevante, facilmente substituível sem levantar sobrolhos, vivia num qualquer apartamento da periferia da sua cidade igual a todas as outras. Era perfeitamente igual, igual a todos os outros.
Excepto numa particularidade: todas as noites, sem fazer caso ao dia ou ocasião, e sem sequer o pensar, corolário de todos os hábitos adquiridos há muito tempo, jantava no mesmo restaurante. Inexoravelmente. Jantava no mesmo restaurante.
Não era nada de extravagante ou especial: era um restaurante comum, como tantos, quem sabe até mais simples e despido de particularidades que a maioria. Era, acima de tudo, um restaurante brando, honesto, meramente competente: nunca tendo havido casos de intoxicações alimentares ou problemas com as entidades fiscalizadoras, não se esperaria dele qualquer iguaria digna de nota, ou prato inesperadamente merecedor de elogios rasgados. Era a média feita para o homem médio, com um preço médio e nada de extraordinário.
E, ainda assim, só se lá podia comer com marcação, ou, no seu caso, sendo velho cliente e conhecido da casa, pois sendo verdade que nada tinha de particularmente chamativo, não o era menos que o seu espaço era sempre muito pequeno para a procura que gerava, por pequena que esta também fosse. E acabavam todos os dias, por conseguinte, vários potenciais clientes na rua e sem jantar, por fala de lugar e hábito.
Isso era das coisas que mais lhe agradava: ter aquele espaço, ali, disponível para si e não para todos, ainda que por uma razão meramente logística e não qualitativa. Gostava de poder contar com a sua refeição, é certo, sem surpresas, buscas ou trabalho desnecessário; disponível, fácil, e habitual. Mas não poderia negar, no seu âmago, que mais que os insuspeitos temperos usados na sua confecção, o que lhe dava o sabor era o saber que este era o seu restaurante, o seu espaço, o seu momento, e que este não era (nem podia ser) para todos. E iludia o seu dia a dia com o sonho de unicidade, e o sentimento de ser especial (ao menos no seu restaurante).
Então, como muitos outros, viveu anos (quantos ao certo nem saberá!), satisfeito no seu restaurante igual de todos os dias.
Contudo ouvia histórias. No trabalho, na rua, no café com os amigos (ou conhecidos de longa data que insistia em nomear como tal, por convenção social ou crença vã), ouvia histórias.
Histórias de pessoas que frequentavam os mais exóticos e requintados restaurantes, e das suas ementas apenas imagináveis para o comum dos mortais, e que lhe estavam, à partida, completamente vedados. E pensava, intimamente, se o seu era tudo quanto merecia, e se seria tudo. Consolava-se – é certo – dizendo a si mesmo que se todo esse luxuoso desconhecido lhe estava para além dos limites, o mesmo acontecia entre esses estranhos de que ouvia falar e o seu restaurante. Era verdade, sabia-o bem. Era-o, no entanto, por uma simples questão da ordem de chegada, da ocupação, e não de qualquer factor pessoal: era seu pois chegara primeiro, ocupara a mesa que agora não poderia ser de mais ninguém, por mais importante ou valorosa que fosse o pretendente. Nada como os critérios dos outros, sempre inalcançáveis ao comum dos mortais. E isso, ao invés de o apaziguar, moía ainda mais a sua já frágil confiança, em si e no seu restaurante, que, ainda que inacessível por esta razão, não seria talvez sequer cobiçado por quem tinha tal livre-trânsito nos muitos estabelecimentos de sonho de que só ouvira falar e vira nas revistas da especialidade.
Ouvia também, de vez em quando, histórias de pessoas que, sendo comuns como ele, chegavam, por um meio ou outro sempre vagamente obscuros, a frequentar esses pedaços de paraíso do seu imaginário. Não os compreendia, e sentia até uma raiva e inveja veladas por quem, não tendo mais razões que ele, traíra assim a sua posição na cadeia alimentar, passando para um lugar que não lhe competia, apenas por ter sido capaz de algo que ele, com as mesmas capacidades aspirações e sonhos, não conseguia sequer vislumbrar.
Mas o que o assombrava mais eram outros contos: os de coragem e (pensava ele no seu âmago) de alguma loucura irresponsável, daqueles que todos os dias experimentavam novos restaurantes, sem marcações, sem hábitos, sem o amargo da rotina, mas sobretudo sem medo do prato e confecção desconhecidos, e sem medo de ficar sem jantar. E, grande parte das vezes, sem planear voltar, por muito que tivessem gostado.
Eram loucos, afirmava para si: sim, loucos, mas invejáveis. Conheceriam e levariam, certamente, mais do que ele desta vida, que era homem de um só restaurante, e que de doces da casa só preferia um, porque um era tudo quanto conhecia.
Estes pensamentos importunavam-no, muitas vezes, nos últimos tempos, com uma intensidade e frequências cada vez maiores. A mesma comida parecia-lhe já nem ter sabor, diminuída, na sua mente, pelos sabores hipotéticos do que nunca comera, e, recentemente, já nem jantava com o mesmo gosto de sempre, ainda que, objectivamente, a qualidade do estabelecimento se tivesse mantido. Certo dia, inclusive, deu por si a fechar os olhos e a pensar, inscientemente, estar a comer noutro local, um outro prato, raro, exótico, nunca antes experimentado e, acordado do sonho acordado, sentiu-se duplamente mal: pela sua cobardia real que transfigurava em coragem só em sonhos, e pela sua, na sua ideia, traição ao fiel cozinheiro de longa data.
Foi então que decidiu. Iria arriscar. Iria, sem destino, procurar outro sítio, outra rotina (ou falta dela!), outra experiência, outra vida. Despedir-se-ia do restaurante de sempre, e procuraria um que completasse todos os seus sentidos, e que o fizesse sentir algo para além do marasmo do hábito, do alastrar da preguiça e da comodidade.
Poderia, sabia-o, arrastar-se, indolentemente, sem conseguir encontrar alternativas: os melhores restaurantes estavam, é certo, cheios, e possuiriam guest-lists intermináveis de VIPS, e homens de valor. Outros, mais modestos, estariam, quem sabe, ocupados como o seu estivera por si, por clientes habituais e de longa data, e neles também não teria lugar. Ao procurar algo, diferente, perderia certamente o seu lugar fixo no seu sítio de sempre: e ao voltar, no escuro da noite, derrotado e esfomeado por nada mais vislumbrar como alternativa, encontraria a sua mesa ocupada, em definitivo, por outro alguém em trajectória inversa, vendo-se, assim, remetido à fome e ao frio de não ter lugar.
Vaguearia, no deserto de nada encontrar, a menos que a sorte lhe sorrisse, e comeria em tascas, e comeria os restos e o lixo de quem festejava a abundância, e perder-se-ia pelos cantos de sítios pouco recomendáveis e obscuros, ou iria então para casa, sem alento ou alimento algum.
Trocava, deste modo, o certo pelo sonho: e sabia, também, a injustiça que cometia para com a casa tão certa e honesta que o perderia como cliente. Mas o pensamento do que poderia ser assombrava-o, e a fome era simples consequência possível de seguir um sonho.
E então partiu.
Pedro Leitão